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Uma vez por semana, pelo
menos, minha irmã e eu nos sentamos numa lanchonete da
cidade para podermos conversar e saborear um lanche,
um salgado ou outras guloseimas que nossos olhos
“avistam primeiro que nossa vontade de comer”.
Tranqüilamente e na mais
completa paz, os assuntos vão fluindo, trocamos idéias
e novidades, resolvemos problemas, juntamos e
resolvemos nossas aflições e alegrias, enfim, são
momentos nossos, que duram cerca de duas hora, mas nos
restauram das atribulações do dia.
Na sexta-feira, como de
costume, fomos até o Mc Donald's e conosco estava
nosso sobrinho de 10 anos. Escolhemos os lanches e
nosso pequeno companheiro escolheu o lugar onde
sentaríamos. Devo salientar que ele não esqueceu de
pedir um lanche a mais, para a irmã que ficara em
casa.
Já instalados,começamos a
conversar e os assuntos, como sempre, vão surgindo um
após o outro. Enquanto conversava, também observava o
local e as pessoas ao meu redor.
Vi atrás de mim uma garota
lanchando sozinha, à minha esquerda um casal, na minha
frente duas jovens riam muito, característica da
juventude. Aliás, já percebi há tempos que à medida
que envelhecemos, também vamos deixando de rir.
Minha observação continuou
e vi no balcão algumas pessoas pedindo seus lanches, e
à minha direita, numa mesa redonda, vi cinco pessoas.
Tudo “normal”, como sempre, aliás.
Conversando em meio a
tantos burburinhos, de repente chegou ao meu ouvido, e
depois percebi que ao de minha irmã também, uma frase:
“parece mentira que estamos aqui hoje!”.
Frase comum? Frase banal?
Sim, afinal quantas vezes nós já dissemos a mesma
coisa? Mas não esta frase que estávamos ouvindo! Minha
irmã e eu, instantaneamente nos viramos à procura do
som, daquela voz que pronunciara aquelas palavras que
não saíam apenas dos lábios ou da boca de uma pessoa,
eram palavras saídas do coração daquela senhora
aparentando ter sessenta anos.
Na verdade, o que vimos
foi uma mulher feliz. Seu corpo, seus gestos, sua face
e olhos demonstravam o que ela estava sentindo. Fixei
os olhos na cena e minutos depois um moço que estava
na mesma mesa se levantou, e com o celular tirou uma
foto daquela senhora abraçada a três pequenas crianças
loirinhas, que comiam e bebiam na mais completa
alegria.
Estavam registrando um
momento que para eles, com certeza, ficaria
eternizado.
Voltei para o “meu mundo”,
minha irmã e eu nos olhamos e não conseguimos deixar
de comentar o que presenciamos. Na verdade, a rotina,
os problemas, o nosso cotidiano nos leva a um ritmo de
vida tão doido, que uma cena como aquela nos pega de
surpresa.
No primeiro momento a
frase chegou em mim como um choque e depois foi como
se navegasse em águas límpidas e tranqüilas... um
bálsamo...
E ainda comentando a cena,
nos perguntamos como deve ser triste ter tudo o que o
dinheiro pode nos dar... poder comprar tudo, conhecer
todos os lugares, conseguir realizar todos os sonhos e
não ter nada mais a esperar. E se acaba a espera, a
busca, o que resta?
Se acaba o suor da luta, o
sabor da vitória, o que sobra? Penso que um gosto
amargo de fel.
Somos materialistas sim,
somos vaidosos sim, mas devemos sê-lo na dose exata,
pois a dominamos, ou ela nos domina. Pois se tudo está
pronto, no lugar exato, tudo arrumadinho, sem defeito,
que coisa triste! As miudezas da vida fazem a
diferença e acho que tenho aprendido com a vida a ser
grata a Deus pelas pequenas coisas, pequenos detalhes
que consigo ver e admirar.
Para aquelas cinco
pessoas, não havia fel, com certeza. Não sei quem são,
não sei de seus problemas, das seus idéias e de seus
sonhos. Não sei se formam uma família, se ricos ou
pobres, doentes ou sadios, mas isso não tem
importância, pois o que vi foram pessoas saboreando a
vida no que ela tem de mais bonita, que é a
simplicidade e o encantamento do momento presente.
Faço aqui até um
trocadilho pois o momento presente, foi um presente
para mim.
E se para mim estar ali
era algo rotineiro, para eles era um momento único,
singular. E por isso procurei buscar nesse
acontecimento uma lição e entendi melhor as palavras
de Pe. Fabio de Melo: “ Quando Deus desce a mão sobre
nós, é para nos acordar . Com carinho, mas com
urgência, pois Cristianismo não se concilia com
preguiça”.
É uma verdade, pois se
pensarmos bem, o que mais nos dá felicidade é a
conquista de algo pelo qual precisamos lutar muito. E
como é bom saber que precisamos acordar e ir à luta
todos os dias! Que precisamos a cada instante do nosso
dia lidar na honestidade, amar de verdade, ser pessoa
de integridade, manter a fidelidade às coisas.
Não podemos só observar,
pois acabamos sem sabor, ficamos mais ou menos, pela
metade. Mesmo não conhecendo as cinco pessoas ao meu
lado, sei que colocam um sabor novo nas suas rotinas
todos os dias e não ficam, simplesmente, vendo a vida
passar.
Hoje posso dizer quanto é
bonito a gente entrar na vida do outro pela força que
ele nos dá, ver brotar lágrimas em meus olhos, por uma
pessoa que nunca vi antes na vida, porque essa é
realmente a maravilha do amor de Deus em mim, em
você... em nós. |