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MOMENTO SINGULAR

Maria Célia M. Gandini • Colaboradora • 22/04/2008

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Uma vez por semana, pelo menos, minha irmã e eu nos sentamos numa lanchonete da cidade para podermos conversar e saborear um lanche, um salgado ou outras guloseimas que nossos olhos “avistam primeiro que nossa vontade de comer”.

Tranqüilamente e na mais completa paz, os assuntos vão fluindo, trocamos idéias e novidades, resolvemos problemas, juntamos e resolvemos nossas aflições e alegrias, enfim, são momentos nossos, que duram cerca de duas hora, mas nos restauram das atribulações do dia.

Na sexta-feira, como de costume, fomos até o Mc Donald's e conosco estava nosso sobrinho de 10 anos. Escolhemos os lanches e nosso pequeno companheiro escolheu o lugar onde sentaríamos. Devo salientar que ele não esqueceu de pedir um lanche a mais, para a irmã que ficara em casa.

Já instalados,começamos a conversar e os assuntos, como sempre, vão surgindo um após o outro. Enquanto conversava, também observava o local e as pessoas ao meu redor.

Vi atrás de mim uma garota lanchando sozinha, à minha esquerda um casal, na minha frente duas jovens riam muito, característica da juventude. Aliás, já percebi há tempos que à medida que envelhecemos, também vamos deixando de rir.

Minha observação continuou e vi no balcão algumas pessoas pedindo seus lanches, e à minha direita, numa mesa redonda, vi cinco pessoas. Tudo “normal”, como sempre, aliás.

Conversando em meio a tantos burburinhos, de repente chegou ao meu ouvido, e depois percebi que ao de minha irmã também, uma frase: “parece mentira que estamos aqui hoje!”.

Frase comum? Frase banal? Sim, afinal quantas vezes nós já dissemos a mesma coisa? Mas não esta frase que estávamos ouvindo! Minha irmã e eu, instantaneamente nos viramos à procura do som, daquela voz que pronunciara aquelas palavras que não saíam apenas dos lábios ou da boca de uma pessoa, eram palavras saídas do coração daquela senhora aparentando ter sessenta anos.

Na verdade, o que vimos foi uma mulher feliz. Seu corpo, seus gestos, sua face e olhos demonstravam o que ela estava sentindo. Fixei os olhos na cena e minutos depois um moço que estava na mesma mesa se levantou, e com o celular tirou uma foto daquela senhora abraçada a três pequenas crianças loirinhas, que comiam e bebiam na mais completa alegria.

Estavam registrando um momento que para eles, com certeza, ficaria eternizado.

Voltei para o “meu mundo”, minha irmã e eu nos olhamos e não conseguimos deixar de comentar o que presenciamos. Na verdade, a rotina, os problemas, o nosso cotidiano nos leva a um ritmo de vida tão doido, que uma cena como aquela nos pega de surpresa.

No primeiro momento a frase chegou em mim como um choque e depois foi como se navegasse em águas límpidas e tranqüilas... um bálsamo...

E ainda comentando a cena, nos perguntamos como deve ser triste ter tudo o que o dinheiro pode nos dar... poder comprar tudo, conhecer todos os lugares, conseguir realizar todos os sonhos e não ter nada mais a esperar. E se acaba a espera, a busca, o que resta?

Se acaba o suor da luta, o sabor da vitória, o que sobra? Penso que um gosto amargo de fel.

Somos materialistas sim, somos vaidosos sim, mas devemos sê-lo na dose exata, pois a dominamos, ou ela nos domina. Pois se tudo está pronto, no lugar exato, tudo arrumadinho, sem defeito, que coisa triste! As miudezas da vida fazem a diferença e acho que tenho aprendido com a vida a ser grata a Deus pelas pequenas coisas, pequenos detalhes que consigo ver e admirar.

Para aquelas cinco pessoas, não havia fel, com certeza. Não sei quem são, não sei de seus problemas, das seus idéias e de seus sonhos. Não sei se formam uma família, se ricos ou pobres, doentes ou sadios, mas isso não tem importância, pois o que vi foram pessoas saboreando a vida no que ela tem de mais bonita, que é a simplicidade e o encantamento do momento presente.

Faço aqui até um trocadilho pois o momento presente, foi um presente para mim.

E se para mim estar ali era algo rotineiro, para eles era um momento único, singular. E por isso procurei buscar nesse acontecimento uma lição e entendi melhor as palavras de Pe. Fabio de Melo: “ Quando Deus desce a mão sobre nós, é para nos acordar . Com carinho, mas com urgência, pois Cristianismo não se concilia com preguiça”.

É uma verdade, pois se pensarmos bem, o que mais nos dá felicidade é a conquista de algo pelo qual precisamos lutar muito. E como é bom saber que precisamos acordar e ir à luta todos os dias! Que precisamos a cada instante do nosso dia lidar na honestidade, amar de verdade, ser pessoa de integridade, manter a fidelidade às coisas.

Não podemos só observar, pois acabamos sem sabor, ficamos mais ou menos, pela metade. Mesmo não conhecendo as cinco pessoas ao meu lado, sei que colocam um sabor novo nas suas rotinas todos os dias e não ficam, simplesmente, vendo a vida passar.

Hoje posso dizer quanto é bonito a gente entrar na vida do outro pela força que ele nos dá, ver brotar lágrimas em meus olhos, por uma pessoa que nunca vi antes na vida, porque essa é realmente a maravilha do amor de Deus em mim, em você... em nós.

 

 

.:. Maria Célia Mendes Gandini, de Catanduva (SP),  

é Assistente Social no INSS e articulista do CatnaRede