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solidariedade:

pELO amor ou pela dor?

Maria Célia M. Gandini • Colaboradora • 12/12/2007

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Há dois anos, por causa de uma das pessoas que mais amo em minha vida, freqüento o Hospital de Câncer de Barretos. Hoje, por sinal, aqui me encontro, na sala de espera da UTI. Sala ampla, iluminada, poltronas confortáveis, ar condicionado, água, café e chá à disposição de todos. Um lugar que poderia transmitir muita paz, muita calma, um bálsamo para o nosso cansaço.

Retorno no tempo... quando aqui cheguei pela primeira vez, pois só conhecia o lugar “por ter ouvido falar”, por sempre saber de “alguém que estava se tratando lá”, e não ter me imaginado nunca na mesma situação, trazia em meu coração um misto de tristeza e dor, fé e esperança, mas, confesso, mais tristeza que esperança. E até uma certa desconfiança: será que este hospital é mesmo tudo isso que falam? Fizemos o certo? Tirar uma pessoa tão querida do meio familiar, da sua cidade, do seu meio social E trazê-lo para outra cidade onde não conhecíamos ninguém? 

Eram perguntas inicialmente sem respostas. 

Mas apesar do medo, da dúvida, sabíamos que era o melhor no momento e aqui estávamos nós.

Observando ao meu redor, por ter tido tempo suficiente para fazê-lo, pelas horas de espera e apreensão que passamos nas grandes salas lotadas de pessoas na mesma situação, pude aos poucos conhecer uma, duas, três e muitas pessoas de Catanduva, de várias cidades e Estados. Hoje aqui se encontra um senhor do Amapá, outro de Rondônia... estão sendo operados neste momento. Aqui tenho visto crianças, adolescentes, adultos e muitos idosos.

Além de observar pessoas que ali chegam, tive tempo de observar o local, a limpeza e organização, a atenção dos funcionários e dos enfermeiros, a distribuição de lanches, leite; as refeições que todos recebem - doentes e acompanhantes - tudo doado por pessoas caridosas e cidades que “arregaçam as mangas” promovendo festas para ajudar o hospital; as voluntárias que dedicam o seu dia à nobreza de ajudar o próximo, sempre com uma alegria que vem do coração.

Observei jardins, o local de paz e reflexão onde está enterrado o Dr. Prata, que idealizou e fundou o Hospital, hoje lotado de doentes, precisando de mais médicos, e que mesmo recebendo ajuda das comunidades e da classe artística, passa por dificuldades; médicos que nos atendem em cada retorno.... e nessas reflexões...que incrível... percebo que na dor as pessoas se tornam solidárias. 

E sem perceber, a preocupação com o outro é maior, o querer ajudar o outro é espontâneo, uma melhora na saúde do outro nos alivia e nos dá alegria.

Gosto de observar pessoas, mas observar o seu interior, aquilo que demonstra através das palavras do gesto e do olhar, gosto de ouvir e percebo quão maravilhoso é Deus, que fez cada um diferente para que nos completássemos. Para mim esse observar faz parte da minha vida, é rotina, mas aqui consigo enxergar muito mais além, pois vejo em cada olhar uma esperança que uma pessoa sadia muitas vezes não consegue ter, uma fé verdadeira que vai além da fé “da boca para fora”. Aqui conseguimos entender o que é ter esperança de melhora, de cura, de vida!

E ainda sentada ou em pé muitas vezes para dar lugar aos doentes, continuo olhando... bancos lotados de pessoas aguardando atendimento - são mais de duas mil por dia - uns comendo, outros lendo ou dormindo, muitos conversando e fazendo amizade, trocando endereço e telefone, outros orando baixinho, muitos fumando, tantas ambulâncias que não dá para enumerar, pessoas chorando a dor da morte e pessoas alegres com uma possível melhora ou cura.

E aqui, na sala de espera da UTI, mais certeza tenho de que o homem muda muito mais pela dor do que pelo amor! E não me excluo, pelo contrário, também procuro Deus, rezo mais, faço promessas e jejuns muito mais na dor do que no amor. Sou ser humano e não sou perfeita, apesar de Deus ter nos feito perfeitos, mas nos ter dado o livre arbítrio. E o homem demora para entender, demora para aprender, mas estamos caminhando para isso, estamos vendo que há muito sofrimento causado por nós mesmos, e será preciso acordar, e logo, para essa verdade que Jesus nos ensinou.

Hoje meu pai se encontra na UTI, após uma cirurgia. Minha irmã está com ele e eu escrevo este relato aguardando o momento para “trocarmos nosso plantão” e penso que Deus é maravilhoso, pois consigo esquecer a minha dor para cuidar da dor de meu irmão que está ao meu lado, na mesma situação em que me encontro, que chora e sofre. Consigo até sentir a dor dele pois na assim nos identificamos, nos consolamos, dividimos choros e alegrias, doamos nosso lanche para o irmão que veio de longe. Como é linda a missão do homem, quando bem realizada!

Sai um pouco da sala e agora retorno aos meus escritos... fui na Capela de Nossa Senhora do Pilar, uma linda Capela que já se tornou pequena pelo grande número de pessoas que participam da missa diária. Lugar de oração, silêncio e paz. Momento de conforto e de reflexão, é como se de lá saíssemos com “a bateria recarregada”.

Agradeci mais uma vez pelo senhor ter saído com vida da cirurgia, por estar melhorando aos poucos, por você existir na minha vida e por termos tido a chance de chegarmos até aqui, onde não gastamos dinheiro algum e só ganhamos em experiência para o nosso amadurecimento interior.

Não, não é fácil estar aqui, mas é daqui que vou te levar com mais saúde do que quando aqui chegou. Pai, use a sua fé, sua alegria que é dom de Deus, sua vontade de viver e melhore rápido, você sabe que pode, seja este o nosso maior presente de Natal!

Estou aqui, desde o primeiro dia e esperarei o quanto for necessário, para te levar para casa.

 

 

.:. Maria Célia Mendes Gandini, de Catanduva (SP),  

é Assistente Social no INSS e articulista do CatnaRede