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Há dois anos, por causa
de uma das pessoas que mais amo em minha vida, freqüento
o Hospital de Câncer de Barretos. Hoje, por sinal,
aqui me encontro, na sala de espera da UTI. Sala
ampla, iluminada, poltronas confortáveis, ar
condicionado, água, café e chá à disposição de
todos. Um lugar que poderia transmitir muita paz,
muita calma, um bálsamo para o nosso cansaço.
Retorno
no tempo... quando aqui cheguei pela primeira vez,
pois só conhecia o lugar “por ter ouvido falar”,
por sempre saber de “alguém que estava se tratando
lá”, e não ter me imaginado nunca na mesma situação,
trazia em meu coração um misto de tristeza e dor, fé
e esperança, mas, confesso, mais tristeza que esperança.
E até uma certa desconfiança: será que este
hospital é mesmo tudo isso que falam? Fizemos o
certo? Tirar uma pessoa tão querida do meio familiar,
da sua cidade, do seu meio social E trazê-lo para
outra cidade onde não conhecíamos ninguém?
Eram
perguntas inicialmente sem respostas.
Mas
apesar do medo, da dúvida, sabíamos que era o melhor
no momento e aqui estávamos nós.
Observando
ao meu redor, por ter tido tempo suficiente para fazê-lo,
pelas horas de espera e apreensão que passamos nas
grandes salas lotadas de pessoas na mesma situação,
pude aos poucos conhecer uma, duas, três e muitas
pessoas de Catanduva, de várias cidades e Estados.
Hoje aqui se encontra um senhor do Amapá, outro de
Rondônia... estão sendo operados neste momento. Aqui
tenho visto crianças, adolescentes, adultos e muitos
idosos.
Além
de observar pessoas que ali chegam, tive tempo de
observar o local, a limpeza e organização, a atenção
dos funcionários e dos enfermeiros, a distribuição
de lanches, leite; as refeições que todos recebem -
doentes e acompanhantes - tudo doado por pessoas
caridosas e cidades que “arregaçam as mangas”
promovendo festas para ajudar o hospital; as voluntárias
que dedicam o seu dia à nobreza de ajudar o próximo,
sempre com uma alegria que vem do coração.
Observei
jardins, o local de paz e reflexão onde está
enterrado o Dr. Prata, que idealizou e fundou o
Hospital, hoje lotado de doentes, precisando de mais médicos,
e que mesmo recebendo ajuda das comunidades e da
classe artística, passa por dificuldades; médicos
que nos atendem em cada retorno.... e nessas reflexões...que
incrível... percebo que na dor as pessoas se tornam
solidárias.
E
sem perceber, a preocupação com o outro é maior, o
querer ajudar o outro é espontâneo, uma melhora na
saúde do outro nos alivia e nos dá alegria.
Gosto
de observar pessoas, mas observar o seu interior,
aquilo que demonstra através das palavras do gesto e
do olhar, gosto de ouvir e percebo quão maravilhoso
é Deus, que fez cada um diferente para que nos
completássemos. Para mim esse observar faz parte da
minha vida, é rotina, mas aqui consigo enxergar muito
mais além, pois vejo em cada olhar uma esperança que
uma pessoa sadia muitas vezes não consegue ter, uma fé
verdadeira que vai além da fé “da boca para
fora”. Aqui conseguimos entender o que é ter
esperança de melhora, de cura, de vida!
E
ainda sentada ou em pé muitas vezes para dar lugar
aos doentes, continuo olhando... bancos lotados de
pessoas aguardando atendimento - são mais de duas mil
por dia - uns comendo, outros lendo ou dormindo,
muitos conversando e fazendo amizade, trocando endereço
e telefone, outros orando baixinho, muitos fumando,
tantas ambulâncias que não dá para enumerar,
pessoas chorando a dor da morte e pessoas alegres com
uma possível melhora ou cura.
E
aqui, na sala de espera da UTI, mais certeza tenho de
que o homem muda muito mais pela dor do que pelo amor!
E não me excluo, pelo contrário, também procuro
Deus, rezo mais, faço promessas e jejuns muito mais
na dor do que no amor. Sou ser humano e não sou
perfeita, apesar de Deus ter nos feito perfeitos, mas
nos ter dado o livre arbítrio. E o homem demora para
entender, demora para aprender, mas estamos caminhando
para isso, estamos vendo que há muito sofrimento
causado por nós mesmos, e será preciso acordar, e
logo, para essa verdade que Jesus nos ensinou.
Hoje
meu pai se encontra na UTI, após uma cirurgia. Minha
irmã está com ele e eu escrevo este relato
aguardando o momento para “trocarmos nosso plantão”
e penso que Deus é maravilhoso, pois consigo esquecer
a minha dor para cuidar da dor de meu irmão que está
ao meu lado, na mesma situação em que me encontro,
que chora e sofre. Consigo até sentir a dor dele pois
na assim nos identificamos, nos consolamos, dividimos
choros e alegrias, doamos nosso lanche para o irmão
que veio de longe. Como é linda a missão do homem,
quando bem realizada!
Sai
um pouco da sala e agora retorno aos meus escritos...
fui na Capela de Nossa Senhora do Pilar, uma linda
Capela que já se tornou pequena pelo grande número
de pessoas que participam da missa diária. Lugar de
oração, silêncio e paz. Momento de conforto e de
reflexão, é como se de lá saíssemos com “a
bateria recarregada”.
Agradeci
mais uma vez pelo senhor ter saído com vida da
cirurgia, por estar melhorando aos poucos, por você
existir na minha vida e por termos tido a chance de
chegarmos até aqui, onde não gastamos dinheiro algum
e só ganhamos em experiência para o nosso
amadurecimento interior.
Não,
não é fácil estar aqui, mas é daqui que vou te
levar com mais saúde do que quando aqui chegou.
Pai, use a sua fé, sua
alegria que é dom de Deus, sua vontade de viver e
melhore rápido, você sabe que pode, seja este o
nosso maior presente de Natal!
Estou
aqui, desde o primeiro dia e esperarei o quanto for
necessário, para te levar para casa. |