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Sempre
morei muito perto da casa de meu avô. Na verdade,
morávamos em casa geminada, vovô na amarela e eu na
azul. Não me lembro como tudo começou, pois quando
comecei a entender o que acontecia, tinha, penso eu,
apenas 4 anos.
Naquela época, é lógico que acreditava em Papai Noel.
Se ele vinha todos os anos na minha casa, com a roupa
vermelha, com sua bela barba branca e com um saco
vermelho cheio de brinquedos, como acreditar que era
tudo mentira? Claro que não, ele existia sim, era
verdadeiro.
Todos os anos esperava o meu Papai Noel. Digo meu,
pois era sempre o mesmo que chegava na minha casa:
tinha o mesmo corpo, a mesma voz, a mesma risada hou
hou hou... e trazia tudo o que eu pedia na minha
cartinha. Só podia ser meu esse Papai Noel querido!
Quanta ansiedade ao se aproximar o Natal! Nem dormia
direito! Contava os dias e por não saber ainda lidar
com o calendário, perguntava à mamãe quantas noites
teria que dormir para Papai Noel chegar. Quando
percebia que dormindo um dia e mais um o Papai Noel
chegaria, eu ficava quase que num estado de euforia
que deixava meus pais nervosos, até mesmo irritados
com meu exagero.
E ele chegava, lindo, na minha casa e trazia para nós
tudo que desejávamos. Que alegria! Ele fazia muita
festa com seu sino dourado! Mas depois de sentar em
seu colo, beijá-lo, passar a mão em sua barba, querer
sempre saber como ele chegou até minha casa, era hora
de ele ir embora... levar presentes para outras
crianças... como entender que ele não era somente o
meu Papai Noel?
E os anos foram passando, fui crescendo e no Natal
tudo se repetia, mas pra mim, era sempre como se fosse
a primeira vez. Cheguei aos 8 anos, aos 9 anos, aos 10
anos e fui percebendo que alguma coisa não estava
certa... a voz do Papai Noel passou a ser a voz de
alguém que eu conhecia muito... alguém que eu amava e
que me amava de modo incondicional... aquela risada...
parece que eu a ouvia todos os dias, sentada no colo
de meu avô, que me contava lindas estórias infantis...
E fui sentindo um misto de alegria e decepção, de
alegria e dor... raiva... não sei se era bom ou não o
sentimento que eu tinha naquele momento... eu estava
começando a entender que Papai Noel não existia, que
era invenção, era conto de fadas.
A descoberta foi péssima. Chorei muito, esbravejei,
culpei vovô por não existir Papai Noel, culpei meu
irmão por já ter descoberto e não ter me contado
antes, me senti uma boba, me senti enganada pela
família... fui para o meu canto favorito, onde eu
"vivia" minhas estórias com minhas "bonecas-filhinhas"
e fiquei um bom tempo emburrada com todos.
Mas como tudo na vida passa, esse sentimento também
foi passando e aos poucos fui aceitando conversar com
vovô, voltamos a passear na calçada ao entardecer, ele
voltou a me ver andar de bicicleta, cuidando e zelando
por mim e nossa amizade , de repente, parece que nunca
tinha sido atingida por nada ruim.
Os anos passaram e os presentes continuaram chegando,
mas já de forma diferente, eu os encontrava perto de
meus sapatos, ao lado da árvore de Natal e mesmo
sabendo que eram meus pais que tinham colocado
enquanto eu dormia, dentro de mim ainda sentia prazer
em recebê-los e uma leve certeza de que Papai Noel
havia estado em minha casa naquela noite.
Um dia vovô faleceu, mas esse assunto fica para outra
vez. Naquele momento, perdia vovô, mas não meu Papai
Noel. Fui crescendo, tornei-me adolescente, depois
adulta, hoje faço faculdade. E ainda acredito que
dentro de cada coração mora um Papai Noel.
Foi pensando assim que realizei um sonho antigo, que
aprendi com meu avô tão querido e amado: no último
Natal me vesti de Papai Noel, como vovô fazia.
Coloquei botas pretas, luvas brancas, roupa vermelha,
barba, peguei um sino dourado e lá fui eu, com um
grande saco vermelho nas costas, lotado de presentes,
para o asilo onde faço estágio.
Cheguei pra levar alegria para os idosos que lá
residem. Ao ouvirem o baladar do sino e minha risada
hou, hou, hou... vi em cada rosto deles o meu avô e
percebi que não eram só presentes e alegria que estava
dando a eles, mas a oportunidade de realizarem seus
sonhos ou voltarem a sonhar.
Muitos quiseram sentar em meu colo, outros acariciavam
minha barba, outros choraram e cheguei a ouvir um
senhor dizer "há muito tempo Papai Noel não me
visitava e nem me trazia presente"; de outro ouvi
quando disse "esperei a vida inteira por você e sabia
que um dia viria!".
Sai de lá abençoada, agradecida, pois eu também fui
presenteada, não somente eles. E sei que ali, perto de
nós, estava vovô, nos olhando e rindo hou, hou, hou,
para mim. Mas talvez eles não tenham percebido isso,
nem minhas lágrimas que corriam por debaixo daquela
barba branca.
Está chegando mais um Natal e hoje, confesso, ainda
acredito em Papai Noel. Não mais naquele Papai Noel
que vem do Pólo Norte, voando com suas renas e entram
pela chaminé de minha casa, mas do Papai Noel Deus,
que nos dá esperança, que realiza nossos sonhos.
Do Papai Noel Deus que nos dá força para lutar por
nossos ideais e que nos presenteia todos os dias com a
vida, com o sol, com a brisa suave, com a chuva, com o
riso de uma criança, com o cantar de um pássaro, e com
a certeza de podermos estar com quem amamos, de
podermos antes de tudo, amar o próximo, pois aí estará
a nossa felicidade.
Esse Papai Noel, vovô, sempre esperarei, Natal após
Natal, para sempre. |