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CONTO DE NATAL

Maria Célia M. Gandini • Colaboradora • 26/10/2007

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Sempre morei muito perto da casa de meu avô. Na verdade, morávamos em casa geminada, vovô na amarela e eu na azul. Não me lembro como tudo começou, pois quando comecei a entender o que acontecia, tinha, penso eu, apenas 4 anos.

Naquela época, é lógico que acreditava em Papai Noel. Se ele vinha todos os anos na minha casa, com a roupa vermelha, com sua bela barba branca e com um saco vermelho cheio de brinquedos, como acreditar que era tudo mentira? Claro que não, ele existia sim, era verdadeiro.

Todos os anos esperava o meu Papai Noel. Digo meu, pois era sempre o mesmo que chegava na minha casa: tinha o mesmo corpo, a mesma voz, a mesma risada hou hou hou... e trazia tudo o que eu pedia na minha cartinha. Só podia ser meu esse Papai Noel querido!

Quanta ansiedade ao se aproximar o Natal! Nem dormia direito! Contava os dias e por não saber ainda lidar com o calendário, perguntava à mamãe quantas noites teria que dormir para Papai Noel chegar. Quando percebia que dormindo um dia e mais um o Papai Noel chegaria, eu ficava quase que num estado de euforia que deixava meus pais nervosos, até mesmo irritados com meu exagero.

E ele chegava, lindo, na minha casa e trazia para nós tudo que desejávamos. Que alegria! Ele fazia muita festa com seu sino dourado! Mas depois de sentar em seu colo, beijá-lo, passar a mão em sua barba, querer sempre saber como ele chegou até minha casa, era hora de ele ir embora... levar presentes para outras crianças... como entender que ele não era somente o meu Papai Noel?

E os anos foram passando, fui crescendo e no Natal tudo se repetia, mas pra mim, era sempre como se fosse a primeira vez. Cheguei aos 8 anos, aos 9 anos, aos 10 anos e fui percebendo que alguma coisa não estava certa... a voz do Papai Noel passou a ser a voz de alguém que eu conhecia muito... alguém que eu amava e que me amava de modo incondicional... aquela risada... parece que eu a ouvia todos os dias, sentada no colo de meu avô, que me contava lindas estórias infantis...

E fui sentindo um misto de alegria e decepção, de alegria e dor... raiva... não sei se era bom ou não o sentimento que eu tinha naquele momento... eu estava começando a entender que Papai Noel não existia, que era invenção, era conto de fadas.

A descoberta foi péssima. Chorei muito, esbravejei, culpei vovô por não existir Papai Noel, culpei meu irmão por já ter descoberto e não ter me contado antes, me senti uma boba, me senti enganada pela família... fui para o meu canto favorito, onde eu "vivia" minhas estórias com minhas "bonecas-filhinhas" e fiquei um bom tempo emburrada com todos.

Mas como tudo na vida passa, esse sentimento também foi passando e aos poucos fui aceitando conversar com vovô, voltamos a passear na calçada ao entardecer, ele voltou a me ver andar de bicicleta, cuidando e zelando por mim e nossa amizade , de repente, parece que nunca tinha sido atingida por nada ruim.

Os anos passaram e os presentes continuaram chegando, mas já de forma diferente, eu os encontrava perto de meus sapatos, ao lado da árvore de Natal e mesmo sabendo que eram meus pais que tinham colocado enquanto eu dormia, dentro de mim ainda sentia prazer em recebê-los e uma leve certeza de que Papai Noel havia estado em minha casa naquela noite.

Um dia vovô faleceu, mas esse assunto fica para outra vez. Naquele momento, perdia vovô, mas não meu Papai Noel. Fui crescendo, tornei-me adolescente, depois adulta, hoje faço faculdade. E ainda acredito que dentro de cada coração mora um Papai Noel.

Foi pensando assim que realizei um sonho antigo, que aprendi com meu avô tão querido e amado: no último Natal me vesti de Papai Noel, como vovô fazia. Coloquei botas pretas, luvas brancas, roupa vermelha, barba, peguei um sino dourado e lá fui eu, com um grande saco vermelho nas costas, lotado de presentes, para o asilo onde faço estágio.

Cheguei pra levar alegria para os idosos que lá residem. Ao ouvirem o baladar do sino e minha risada hou, hou, hou... vi em cada rosto deles o meu avô e percebi que não eram só presentes e alegria que estava dando a eles, mas a oportunidade de realizarem seus sonhos ou voltarem a sonhar.

Muitos quiseram sentar em meu colo, outros acariciavam minha barba, outros choraram e cheguei a ouvir um senhor dizer "há muito tempo Papai Noel não me visitava e nem me trazia presente"; de outro ouvi quando disse "esperei a vida inteira por você e sabia que um dia viria!".

Sai de lá abençoada, agradecida, pois eu também fui presenteada, não somente eles. E sei que ali, perto de nós, estava vovô, nos olhando e rindo hou, hou, hou, para mim. Mas talvez eles não tenham percebido isso, nem minhas lágrimas que corriam por debaixo daquela barba branca.

Está chegando mais um Natal e hoje, confesso, ainda acredito em Papai Noel. Não mais naquele Papai Noel que vem do Pólo Norte, voando com suas renas e entram pela chaminé de minha casa, mas do Papai Noel Deus, que nos dá esperança, que realiza nossos sonhos.

Do Papai Noel Deus que nos dá força para lutar por nossos ideais e que nos presenteia todos os dias com a vida, com o sol, com a brisa suave, com a chuva, com o riso de uma criança, com o cantar de um pássaro, e com a certeza de podermos estar com quem amamos, de podermos antes de tudo, amar o próximo, pois aí estará a nossa felicidade.

Esse Papai Noel, vovô, sempre esperarei, Natal após Natal, para sempre.

 

 

.:. Maria Célia Mendes Gandini, de Catanduva (SP),  

é Assistente Social no INSS e articulista do CatnaRede