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"Tropa
de Elite" é uma aula.
Não vou falar do roteiro, nem dos atores, nem de
qualquer aspecto técnico do filme, pois não faz
sentido abordá-los quando a mídia defende que a versão
pirata (sim, foi esta que assisti!) não é a "versão
final".
O filme extrapola tais limites; por estar em contato
íntimo com a realidade do Rio de Janeiro, e, em última
instância de todo o Brasil, é impossível não
compreendê-lo como sendo quase uma obra documental.
Estamos diante de dois panoramas: o primeiro, da vida
na favela, das relações de dominação do narcotráfico,
da corrupção policial, da guerra urbana, do medo
cotidiano do brasileiro, da classe média supostamente
esclarecida no olho do furacão; o segundo, da crise
dos direitos autorais e a invasão da pirataria.
"Tropa de Elite" toca num nervo exposto da sociedade
brasileira, e o primeiro alvo é o espectador. Quem não
conhece (ou não é) um usuário de maconha, crack ou
cocaína que atire a primeira pedra!
O narcotráfico está no mesmo patamar da prostituição,
do jogo do bicho, e da própria pirataria; só existe
porque existem consumidores/jogadores/clientes. Um não
existe sem o outro, e enquanto houver a hipocrisia (e
o interesse) de criminalizar o narcotraficante e não o
usuário, dificilmente se resolveria o problema.
Aliás, problemas é o que não falta no país do samba e
futebol, pois, para solucionar um pepino, seria
necessário solucionar outros, numa cadeia interminável
de soluções impraticáveis numa terra onde tudo é
permitido.
A inversão de valores é tão gritante que chegamos a
torcer para que o policial do Bope espanque o
traficante, legitimando até aquilo que seria mais
abominável ao homem ocidental: a tortura.
E assim o ciclo de
problemas se reinicia, ao coagir a população, a
polícia utiliza meios criminosos para resolver o
crime, numa relação de ódio e medo que nunca se
extingue. Este é o nosso país, no qual a única
consciência política é uma turminha se reunir e vestir
uma camiseta onde está escrito: CANSEI!
Por outro lado, o filme acabou sendo alvo daquilo que
critica. Não é novidade que boa parte dos artigos
piratas são fachada para o crime organizado. Talvez
"Tropa de Elite" seja o filme com maior audiência
antes da estréia da História. Todo mundo queria saber
da trama sobre a polícia odiada por todos, tanto pelo
malandrinho da favela quanto pelo policial corrupto.
É inegável que, nos próximos anos, haverá uma revisão
no conceito de direito autoral. Novas formas de
remunerar o produtor terão de ser criadas se não
quisermos assistir a uma crise na indústria cultural.
O tempo no qual apenas a classe alta e média tinha
acesso a certas modalidades da cultura de massas, como
o cinema, o DVD, o CD e o livro está chegando ao fim.
Nas ruas, encontra-se todos os sons e filmes mais
badalados; na internet, a febre dos MP3, do downloads
de livros, de P2P de filmes, ou seja, ou a indústria
cultural se renova, ou definha.
Não é o tipo de processo
que pode ser detido e quando fenômenos como o de
"Tropa de Elite" ocorrem, temos a certeza de que a
situação está crítica.
E é curioso que um simples filme sobre uma divisão da
polícia militar possa causar tais reflexões. Na
verdade, "Tropa de Elite" sugere bem mais, desde da
microfísica do poder de Foucault até sobre
pseudo-filantropia. Cada espectador encontrará uma
parte de seu mundo no filme e, se não se sentir
atingido por alguma das críticas feitas por ele, é
porque é mais alienado do que pensa.
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