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O
grande dilema do fim de semana, entre mim e minha
esposa, foi se deveríamos assistir a "Indiana Jones"
ou a "Sex and the City". Cedi, e ganhou a segunda
opção.
Minha primeira preocupação foi se eu, que nunca fui um
espectador da série televisiva, entenderia o enredo do
filme, ou melhor, se os produtores do filme honrariam
apenas aos fãs (quer dizer, às fãs) e ou se também
pensariam nos perdidos, como eu, que acabariam
acidentalmente na sala de cinema.
A surpresa foi que, em poucos segundos de introdução,
o filme "Sex and the City" realiza um belo resumão de
6 anos de série e adentra no que é mais importante: o
assunto do filme.
Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) finalmente se
casará com Sr. Big, com quem manteve um turbulento
relacionamento por anos. É óbvio que nenhum casamento
no cinema ou nas novelas pode ser bem-sucedido de cara
e todos estes desencontros, paralelamente às tramas
das outras três amigas - Samantha, Charlotte e Miranda
-, comporão os dramas necessários a um bom enredo.
O filme agrada, mas muito mais pelas tramas
secundárias, mais humanas, ou mais engraçadas, do que
por causa do enredo principal. As piadas são
espontâneas e o filme é engraçado sem precisar de
muitos malabarismos.
Por outro lado, é um filme explicitamente feminino,
tanto nos temas, quanto em sua própria estrutura. Os
homens são personagens acessórios, geralmente
apresentados numa posição quase antagônica, um
objetivo a ser conquistado, criaturas a serem
dominadas. Fato que por si só não significa nada
demeritório, já que comumente a ótica é a inversa, com
protagonistas masculinos absortos numa luta ególatra
por poder.
As mulheres de "Sex and the City" são, ou se tornaram,
os símbolos da feminilidade do século XXI,
independentes - financeira e emocionalmente -, que
valorizam o relacionamento interpessoal desde que este
não prejudique suas próprias individualidades. Só vale
a pena uma amizade ou um amor se este não se
interpuser aos objetivos de vida; felicidade não
combina com auto-anulação.
Um aspecto curioso foi que boa parte das espectadoras
do filme não pertence à geração que acompanhou a série
- entre 1998 e 2004. Há muitas jovens, provavelmente
espectadoras de reprises, mas que demonstraram sua
admiração a esta série que se tornou um mito da TV
contemporânea.
Não podemos nos iludir, no entanto, que as quatro
amigas representam a totalidade das mulheres
americanas, nem sequer das nova-iorquinas. Elas são
espelhos dum mundo movido a marcas famosas e a homens
sexualmente ativos, mas que relegam às sombras toda a
outra sorte de mulheres - intelectuais, undergrounds,
despojadas, solteironas amargas, ou prisioneiras de
éticas religiosas... -, que fogem ao escopo do que a
série pretende, ou do que o mundo quer ver.
Para nós, homens, o filme vale quase como um estudo
antropológico, como um mergulho num universo tão
distinto, tão avesso, mas ao mesmo tempo tão
indissociável do nosso.
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