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Verão
de 1995. Estávamos de férias no colégio e,
diferente do que fazia meu irmão mais novo – que
adorava correr pelas ruas e soltar pipa – eu
aproveitava esta época para ler. Tínhamos uma
pequena biblioteca em casa. Meu pai sempre destacou
que, no passado, ampliou seu acervo ao assinar o Círculo
do Livro. Segundo ele, a assinatura proporcionava bons
títulos, entremeados a obras de menos destaque.
Colhi
alguns livros da estante e passei a ler. Uma coleção
de Monteiro Lobato, com 16 volumes, foi o início.
Depois, entretive-me com “Os Sonhos Morrem
Primeiro”, de Harold Robbins, e obras de terror e
suspense. Apaixonei-me pelos livros. Aliás, eram duas
paixões: literatura e informática. Eu queria ser um
especialista na área.
Não
sei o motivo daquela pretensão, mas era um ideal. Só
refleti sobre o assunto na metade do terceiro
colegial. A professora de redação parou-me na porta
da sala e questionou-me sobre minha opção. “Você
tem certeza que quer isso para o seu futuro?”,
indagou. Acho que ela sabia de algo que eu não sabia.
Há
coisas na vida que parecemos não querer enxergar.
Lembro que, na 4ª série, participei de um concurso
de redação e ganhei o primeiro prêmio. Depois, no
Ensino Médio, ganhei uma bolsa de estudos no colégio
– sem fazer prova –, como recompensa pelas boas
notas. Os destaques foram, como sempre, português,
literatura e redação.
Na
hora de prestar vestibular, surgiu o dilema. Faria Ciências
da Computação, mesmo sem dom para a área? Naquela
época, não me preocupava em fazer cálculos ou
pensar em questões físico-químicas, mas sim em ler
e reler o conteúdo de geografia e história, bem como
apreciar obras das listas para o vestibular –
Machado de Assis, Eça de Queirós, Clarice Lispector.
Mesmo
decidido a cursar computação, ao ler o Guia do
Estudante que, em uma pequena nota, na página sobre
Jornalismo, encontrei uma justificativa para enganar
minha consciência e seguir para o caminho que me
daria prazer em trilhar. O texto dizia que,
atualmente, o jornalista deve estar preparado para as
novas tecnologias, sendo este, portanto, o melhor
motivo para unir, ao menos em pensamento, minha paixão
pela leitura, facilidade com textos e o interesse pela
computação.
Ao
cursar Jornalismo na Universidade Estadual Paulista
(Unesp), distanciei-me das idéias tecnológicas,
exceto pela proximidade que sempre mantive com o
Jornalismo Digital, que, na verdade, não deixa de ser
uma influência moderna na prática tradicional da
Comunicação Social.
Já
no primeiro ano do curso, sem nem mesmo ter recebido
qualquer instrução na faculdade que se iniciava, e
logo após enviar duas cartas para um jornal de
Catanduva (SP), minha terra natal, recebi o convite
para fazer estágio no periódico, em períodos de férias.
Imagino
que a leitura cotidiana dos jornais do município
deram-me boa base que, aliada ao prazer por escrever e
aos conselhos de um bom editor que cruzou o meu
caminho, possibilitou uma experiência interessante no
jornalismo diário, mesmo sem o embasamento técnico e
teórico que eu ganharia nos três anos seguintes.
Nos
semestres que se seguiram, abandonei a leitura dos clássicos
para dedicar mais tempo a livros de técnicas jornalísticas
e obras que, até então, eu jamais imaginei existir.
Descobri, por exemplo, que Chico Buarque era escritor.
Adorei a leitura de “Estorvo”. Assinado por
Austregésilo Carrano, o “Canto dos Malditos” foi
outro que chamou minha atenção. Durante a faculdade,
interessei-me, verdadeiramente, pela produção de José
Saramago e seus “ensaios”.
Às
vezes penso: como aquela professora sabia tanto sobre
mim, sem nem mesmo conhecer-me de verdade? Hoje, sem dúvida,
conheço-me bem o bastante para afirmar que fiz a
escolha certa. E, mais do que isso, tenho planos para
o futuro. Projetos como jovem jornalista e como cidadão.
A
verdade é que, se tantos garotos pensam em ser
bombeiro “quando crescer”, ou mesmo policial,
cantor e jogador de futebol, eu, durante minha adolescência,
queria ser algo diferente do que realmente sou e
deveria ser. Apenas aquela “misteriosa” professora
e meu “eu” interior sabiam qual meu verdadeiro dom
e paixão.
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