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Guilherme Gandini • CatnaRede • 21/11/2007

Artigo criado originalmente para o Curso Abril de Jornalismo

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Verão de 1995. Estávamos de férias no colégio e, diferente do que fazia meu irmão mais novo – que adorava correr pelas ruas e soltar pipa – eu aproveitava esta época para ler. Tínhamos uma pequena biblioteca em casa. Meu pai sempre destacou que, no passado, ampliou seu acervo ao assinar o Círculo do Livro. Segundo ele, a assinatura proporcionava bons títulos, entremeados a obras de menos destaque.

Colhi alguns livros da estante e passei a ler. Uma coleção de Monteiro Lobato, com 16 volumes, foi o início. Depois, entretive-me com “Os Sonhos Morrem Primeiro”, de Harold Robbins, e obras de terror e suspense. Apaixonei-me pelos livros. Aliás, eram duas paixões: literatura e informática. Eu queria ser um especialista na área.

Não sei o motivo daquela pretensão, mas era um ideal. Só refleti sobre o assunto na metade do terceiro colegial. A professora de redação parou-me na porta da sala e questionou-me sobre minha opção. “Você tem certeza que quer isso para o seu futuro?”, indagou. Acho que ela sabia de algo que eu não sabia.

Há coisas na vida que parecemos não querer enxergar. Lembro que, na 4ª série, participei de um concurso de redação e ganhei o primeiro prêmio. Depois, no Ensino Médio, ganhei uma bolsa de estudos no colégio – sem fazer prova –, como recompensa pelas boas notas. Os destaques foram, como sempre, português, literatura e redação.

Na hora de prestar vestibular, surgiu o dilema. Faria Ciências da Computação, mesmo sem dom para a área? Naquela época, não me preocupava em fazer cálculos ou pensar em questões físico-químicas, mas sim em ler e reler o conteúdo de geografia e história, bem como apreciar obras das listas para o vestibular – Machado de Assis, Eça de Queirós, Clarice Lispector.

Mesmo decidido a cursar computação, ao ler o Guia do Estudante que, em uma pequena nota, na página sobre Jornalismo, encontrei uma justificativa para enganar minha consciência e seguir para o caminho que me daria prazer em trilhar. O texto dizia que, atualmente, o jornalista deve estar preparado para as novas tecnologias, sendo este, portanto, o melhor motivo para unir, ao menos em pensamento, minha paixão pela leitura, facilidade com textos e o interesse pela computação.

Ao cursar Jornalismo na Universidade Estadual Paulista (Unesp), distanciei-me das idéias tecnológicas, exceto pela proximidade que sempre mantive com o Jornalismo Digital, que, na verdade, não deixa de ser uma influência moderna na prática tradicional da Comunicação Social.

Já no primeiro ano do curso, sem nem mesmo ter recebido qualquer instrução na faculdade que se iniciava, e logo após enviar duas cartas para um jornal de Catanduva (SP), minha terra natal, recebi o convite para fazer estágio no periódico, em períodos de férias.

Imagino que a leitura cotidiana dos jornais do município deram-me boa base que, aliada ao prazer por escrever e aos conselhos de um bom editor que cruzou o meu caminho, possibilitou uma experiência interessante no jornalismo diário, mesmo sem o embasamento técnico e teórico que eu ganharia nos três anos seguintes.

Nos semestres que se seguiram, abandonei a leitura dos clássicos para dedicar mais tempo a livros de técnicas jornalísticas e obras que, até então, eu jamais imaginei existir. Descobri, por exemplo, que Chico Buarque era escritor. Adorei a leitura de “Estorvo”. Assinado por Austregésilo Carrano, o “Canto dos Malditos” foi outro que chamou minha atenção. Durante a faculdade, interessei-me, verdadeiramente, pela produção de José Saramago e seus “ensaios”.

Às vezes penso: como aquela professora sabia tanto sobre mim, sem nem mesmo conhecer-me de verdade? Hoje, sem dúvida, conheço-me bem o bastante para afirmar que fiz a escolha certa. E, mais do que isso, tenho planos para o futuro. Projetos como jovem jornalista e como cidadão.

A verdade é que, se tantos garotos pensam em ser bombeiro “quando crescer”, ou mesmo policial, cantor e jogador de futebol, eu, durante minha adolescência, queria ser algo diferente do que realmente sou e deveria ser. Apenas aquela “misteriosa” professora e meu “eu” interior sabiam qual meu verdadeiro dom e paixão.

 

 

.:. Guilherme Gandini, de Catanduva (SP), é jornalista formado pela Unesp/Bauru. MTB: 50.250.