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Poucas vezes uma
reportagem a respeito do MST foi tão distorcida quanto
a do Jornal Nacional da última quarta-feira
[09/04/08]. Nos dois minutos e vinte e quatro segundos
da matéria busca-se a criminalização dos camponeses;
para tanto, imagens e palavras são cuidadosamente
articuladas para transmitir ao telespectador a idéia
de que os militantes do movimento são os responsáveis
por todo o medo que ronda os paraenses.
Logo na abertura da
matéria, o fundo escurecido por trás do apresentador
exibe a sombra de três camponeses portando ferramentas
de trabalho em posições ameaçadoras, como a destruir a
cerca cuidadosamente iluminada pelo departamento de
arte da emissora.
Quando os militantes
aparecem nas imagens, estão montando o acampamento e
utilizando folhas de palmeiras - naturalmente já
arrancadas das árvores. Quando a matéria corta para
ouvir a opinião de um empresário local, ele tem ao
fundo exatamente uma folha de palmeira, só que firme
no solo - vistosa e viva.
O representante da Vale do
Rio Doce é o que tem mais tempo para se manifestar,
até gagueja e balbucia: "esses movimentos... estão
[nos] impedindo de trabalhar".
Em nenhum momento os
representantes do MST são ouvidos, o que contraria,
inclusive, as próprias regras do manual de jornalismo
da Globo. Mas quando os interesses comerciais de
empresas amigas estão em jogo essas regras são postas
de lado.
Outro dado marcante desta
reportagem é a descontextualização dos fatos. O
telespectador é apenas informado que o MST “ameaça
invadir a Estrada de Ferro Carajás, da Companhia
Vale”, mas não se explica que esta ação direta tem uma
origem: a privatização fraudulenta da empresa que era
estatal. A companhia foi leiloada, em 1997, por R$ 3,3
bilhões. Valor semelhante ao lucro líquido da empresa
obtido no segundo trimestre de 2005 (R$ 3,5 bi), numa
clara demonstração do prejuízo causado ao patrimônio
nacional.
Desde então, cidadãos e
cidadãs vêm promovendo manifestações políticas e ações
judiciais que têm por objetivo chamar a atenção da
sociedade e sensibilizar as autoridades competentes
para anular o processo licitatório.
Se há uma diferença brutal
entre discordar de uma determinada opinião e omiti-la,
este caso torna-se ainda mais grave porque não se
trata de uma opinião, e sim de um fato político: a
privatização da Vale é questionada na Justiça – e com
grandes chances de ser revertida. Ao sonegar esta
informação, a Globo comete um crime.
Com a mesmíssima
parcialidade age o jornal carioca O Globo. A
reportagem publicada no mesmo dia sobre o MST não
deixa dúvidas quanto a posição contrária do jornal. A
chamada na capa diz: “MST desafia a Justiça e volta a
ameaçar a Vale”; o pequeno texto, logo abaixo,
aprofunda a toada: “O MST ameaça descumprir ordem
judicial e invadir novamente a ferrovia de Carajás, da
Vale, no Pará. Moradores da região estão atemorizados,
com a cidade cercada por mais de mil militantes do
MST, a quem acusam de terrorismo”.
A reportagem principal, à
página 9, é acompanhada de outra de igual tamanho.
Ambas ouvem apenas a versão da mineradora privatizada
pelo governo tucano de FHC. Imediatamente abaixo, como
a reforçar a visão policialesca, uma fotografia de um
homem morto sobre o título: “Em Porto Alegre, um
flagrante de homicídio”. Nenhum dos dois veículos (O
Globo e JN) registrou o apoio recebido
pelo MST por artistas, intelectuais e lideranças
partidárias.
Esta falsa preocupação do
Globo com a defesa do povo brasileiro não é de agora.
O mesmo jornal que sugere que os militantes do MST são
terroristas há 44 anos agiu da mesma foram quando um
golpe de Estado derrubou o presidente constitucional
João Goulart. Em texto editorial do dia 2 de abril de
1964, o “Globo” assinalou:
- Vive a Nação dias
gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas
(...) para salvar o que é essencial: a democracia, a
lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das
Forças Armadas (...), o Brasil livrou-se do Governo
irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos
contrários à sua vocação e tradições (...)
Assim como para o “Globo”
os inimigos do passado eram aqueles que se insurgiam
contra a ditadura que seqüestrou, torturou e matou
milhares de brasileiros, hoje os terroristas são
aqueles que lutam contra as multinacionais que roubam
o patrimônio público, danificam o meio-ambiente e
produzem graves problemas sociais.
É por isso que ao
interromper o fluxo de exportação de uma dessas
empresas os militantes do MST acertam em cheio no
sistema nervoso do capitalismo. Dotados apenas de
enxadas e coragem, os sem-terra enfrentam jagunços
armados, policiais e poderosos grupos de comunicação -
esse coquetel que tem como objetivo massacrar o povo
organizado. Os militantes do MST ensinam ao povo
brasileiro: não é uma luta justa, mas é uma luta que
pode ser vencida.
Por outro lado, o
jornalismo dos Marinhos mais uma vez revelou seu
caráter covarde e submisso. Aliou-se aos poderosos e
rasgou o juramento profissional da categoria,
sobretudo no seguinte trecho: "A Comunicação é uma
missão social.
Por isto, juro respeitar o
público, combatendo todas as formas de preconceito e
discriminação, valorizando os seres humanos em sua
singularidade e na luta por sua dignidade".
Mas não há de ser nada. A
História vai se ocupar de reservar a cada qual seu
devido lugar. |