CATANDUVANAREDE.COM

ARTIGOS

LÁGRIMAS MORTAS

Andrea Justino • Colaboradora • 17/03/2008

PRINCIPAL

ARTIGOS

fALE CONOSCO

voltar


 

 

Chutava pedrinhas do chão enquanto suas botas batiam a cada novo passo, a noite já caia, não havia vento, nem som que pudesse atravessar o abismo em que ela se encontrava naquele instante.

A cada passo a certeza da dor que feria sua alma, passos lentos e continuava a caminhar, havia chovido e o chão molhado refletia seu interior, as folhas caídas no chão traduziam tão bem os seus sonhos desfeitos, despedaçados. Mais alguns lentos passos e deparou-se com algo que piscava, já não sabiam direito onde estava, as lágrimas ofuscavam sua visão e passando as mãos frias no seu rosto também frio limpou as lágrimas quentes que insistiam em cair e pode ler:

MOULIN - Bar para solteiros.

Tentou respirar e buscar o ar lá no fundo, olhando pela segunda vez pôde confirmar do que se tratava., e navegou em seus próprios pensamentos. O destino talvez estivesse tirando uma na sua tristeza, rindo dos seus planos desfeitos, dando gargalhadas das suas lágrimas mortas, queria responder com gritos, mas tudo que conseguiu foi empurrar a porta e adentrar no Moulin.

Algumas mesas, fumaça de cigarro, pouca luz, música tranqüila, ambiente que refletia e repelia seu interior, estava dentro. Sentou-se em uma banqueta no bar como nunca antes tivera feito e pediu um campari, amargo como seu coração, vermelho como seus verdes olhos. O copo vazio, o corpo quente no bar quase deserto, passeou os olhos e avistou algumas poucas pessoas sozinhas, pediu outra dose, que descia rasgando sua garganta seca e caia quase explosiva no seu estômago, queria sentir-se viva, estava dispensando as lágrimas, a dor, a punhalada, a vida não escolhida. Pagou a conta e saiu, tão igual quanto entrou, além da dose que esquentou por segundos seu corpo, nada mudará.

Voltou a caminhar lentamente, já não chutava pedrinhas nem olhava para o chão, avistava o dia nascendo, quase um espetáculo se o seu interior não estivesse tão negro, tão tempestuoso, continuava a passos lentos enquanto o sol despontava invadindo a sua noite escura, agora já sabia em que caminho estava e dobrando a esquina do seu destino avistou alguém vindo ao seu encontro e reconheceu sua irmã quando chegou perto, dizendo:

- O enterro vai sair.

Imóvel, as lágrimas gritavam suas palavras mudas.Tirando da sua mão direita o anel que nada mais significava, deixou ele rolar pelo chão.

Tudo estava enterrado.