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Chutava pedrinhas do chão enquanto suas
botas batiam a cada novo passo, a noite já caia, não havia vento, nem
som que pudesse atravessar o abismo em que ela se encontrava naquele
instante.
A cada passo a certeza da dor que feria
sua alma, passos lentos e continuava a caminhar, havia chovido e o
chão molhado refletia seu interior, as folhas caídas no chão traduziam
tão bem os seus sonhos desfeitos, despedaçados. Mais alguns lentos
passos e deparou-se com algo que piscava, já não sabiam direito onde
estava, as lágrimas ofuscavam sua visão e passando as mãos frias no
seu rosto também frio limpou as lágrimas quentes que insistiam em cair
e pode ler:
MOULIN - Bar para solteiros.
Tentou respirar e buscar o ar lá no fundo,
olhando pela segunda vez pôde confirmar do que se tratava., e navegou
em seus próprios pensamentos. O destino talvez estivesse tirando uma
na sua tristeza, rindo dos seus planos desfeitos, dando gargalhadas
das suas lágrimas mortas, queria responder com gritos, mas tudo que
conseguiu foi empurrar a porta e adentrar no Moulin.
Algumas mesas, fumaça de cigarro, pouca
luz, música tranqüila, ambiente que refletia e repelia seu interior,
estava dentro. Sentou-se em uma banqueta no bar como nunca antes
tivera feito e pediu um campari, amargo como seu coração, vermelho
como seus verdes olhos. O copo vazio, o corpo quente no bar quase
deserto, passeou os olhos e avistou algumas poucas pessoas sozinhas,
pediu outra dose, que descia rasgando sua garganta seca e caia quase
explosiva no seu estômago, queria sentir-se viva, estava dispensando
as lágrimas, a dor, a punhalada, a vida não escolhida. Pagou a conta e
saiu, tão igual quanto entrou, além da dose que esquentou por segundos
seu corpo, nada mudará.
Voltou a caminhar lentamente, já não
chutava pedrinhas nem olhava para o chão, avistava o dia nascendo,
quase um espetáculo se o seu interior não estivesse tão negro, tão
tempestuoso, continuava a passos lentos enquanto o sol despontava
invadindo a sua noite escura, agora já sabia em que caminho estava e
dobrando a esquina do seu destino avistou alguém vindo ao seu encontro
e reconheceu sua irmã quando chegou perto, dizendo:
- O enterro vai sair.
Imóvel, as lágrimas gritavam suas palavras
mudas.Tirando da sua mão direita o anel que nada mais significava,
deixou ele rolar pelo chão.
Tudo estava enterrado. |